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O cinema morreu (nos anos 1920)

O cinema está nas últimas? O cinema de hoje não é cinema de verdade? O “cinema puro” ficou no passado?

No texto abaixo, Alex Viany (1918-1992) relata o clima de repulsa e ansiedade que se abateu sobre os cinéfilos do Chaplin Club, primeiro cineclube do Brasil, entre 1929 e 1930, quando o cinema sonoro se tornou realidade.

“O advento do cinema falado provocou no Brasil as mesmas controvérsias que ocorreram por todo o mundo, e não faltaram os estetas que vaticinaram um fim rápido e inglório para o monstrengo.

Em ‘O fã’, órgão do Chaplin Club, páginas e páginas foram gastas com imprecações, xingamentos e lamentações.

‘Abaixo Vitaphone, abaixo Irmãos Warner, e abaixo tudo e todos que querem amesquinhar essa coisa sublime, essa coisa inestimável: o cinema’, exclamava Cláudio Melo, ao mesmo tempo que lançava um apelo à crítica para ‘a guerra ao cinema falado’. E procurava um consolo: ‘Nunca há de chegar o dia em que Charles Chaplin anunciará um filme falado’.

Já no número seguinte da curiosíssima publicação, Otávio de Faria mostrava-se alarmado com o boato de que Chaplin não estava assim tão irredutível: ‘Prefiro adotar o critério do meu colega Plínio Sussekind Rocha: nunca duvidar de Chaplin. E ficar esperando…’ Enquanto esperava, o excelente cinéfilo erguia os olhos para um céu mudo e em preto e branco: ‘O que não posso compreender de maneira alguma é a cegueira com que o cinema se lança no abismo. (…) O cinema, que vem escapando milagrosamente à ideia do colorido, não poderá cair nesse outro abismo que é o filme falado. (…) O cinema é arte. Arte do preto e do branco. Arte muda. Arte dinâmica, arte visual. Não admite o colorido — da vida real. Não admite a palavra — do teatro. Não admite o canto — da ópera. Não admite a complicação psicológica — do romance. Arte própria, nada pede às outras artes. Arte própria, ela se basta a si mesma. Todo o movimento que não for nesse sentido estará errado, profundamente errado…’ (…)

No número 6, Faria ainda teimava: ‘Eu creio na imagem… Na imagem todo-poderosa. Que autentifica o gesto. Que constrói o movimento. Que cria o ritmo. Que revela a alma. Que exprime o pensamento. Que não admite o som e não pode conceber a palavra. Na imagem que é imagem e só pode ser imagem…’ (…)

Naqueles tempos, porém, foi preciso que Afrânio Peixoto, escrevendo no próprio ‘O fã’, partisse da Bíblia e terminasse por fazer ‘um aviso aos moços, para que não se estabilizem, antes do tempo, velhos precoces’.

‘No princípio’, orava o escritor, ‘não foi, não podia ter sido o verbo. O mundo não rolaria, não caminharia. Estaria e ficaria na mesmice, eterna, intolerante, fanática, sectária. Estaria e ficaria estabilizado. No princípio foi a realidade, a ação, que teve asas e criou a hipótese, a teoria, a doutrina, a filosofia, a interpretação, que, produções espirituais, tem peso e caem, estáveis. São outros fatos, outras ações, que novas asas criam, e voam, para novos páramos ideais.'”

Trecho do livro Introdução ao cinema brasileiro, de Alex Viany, publicado em 1959 pelo Instituto Nacional do Livro e reeditado em 1993 pela Editora Revan.

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