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Ladrões de mentes

“Quando estreou Vampiros de almas (Invasion of the body snatchers, 1956 – seu título agora parece outro filme a mais de George A. Romero), alguém escreveu que era uma alegoria anticomunista. Anos depois se disse que era uma referência clara ao macartismo. O pêndulo da ambiguidade havia completado seu vai-vém. A realidade é que Vampiros de almas, dentro do gênero que inaugura e que transita ao mesmo tempo pela ficção cientifica e o horror, é uma película antitotalitária: não há outra maneira de vê-la. Mas que as palavras ‘alegoria’ e ‘totalitário’ se refiram ao que foi um pequeno filme B, para ser exibido como contrapeso em programas duplos, mostra até que ponto a obra-prima de Don Siegel (quando ainda não assinava Donald Siegel), ao ser fiel a sua época, era uma pelicula visivelmente adiantada (…)

Trinta anos mais tarde a ficção científica se tornaria horror puro em Alien, que não pretende mais que o entretenimento pelo choque nervoso, porém Vampiros de almas, uma obra-prima do filme B, mostra que o verdadeiro alius não vem do espaço exterior: já está dentro, alienus. Vampiros de almas é o oposto de uma metamorfose kafkiana: o ser foi substituído pelo perfeito similar sem ser. Gregor Samsa já não é um escaravelho que pensa, mas sim um vegetal vivo. Melhor que body snatchers (“os ladrões de cadáveres”, com a ambiguidade de que body significa corpo e ao mesmo tempo corpo morto) deviam ser mind snatchers, os ladrões de mentes. A vara pensante de Pascal se tornou por fim oca e vazia. Vivam os mortos!”

Guillermo Cabrera Infante, 1997

Trecho do artigo “De entre os zumbis”, publicado no terceiro volume da edição de Cinema ou sardinha (Cine o sardinha), livro de Guillermo Cabrera Infante (1929-2005) publicado no Brasil em 2016 pela editora Gryphus. Tradução de Gilson B. Soares.

Vampiros de almas está disponível em DVD no Brasil na caixa Clássicos Sci-fi Vol. 6, da Versátil. O filme foi baseado no livro The body snatchers, de Jack Finney, lançado no Brasil como Os invasores de corpos (fora de catálogo, disponível na Estante Virtual), mesmo título que as duas primeiras refilmagens da obra de Don Siegel ganharam por aqui (dirigidas por Philip Kaufman, 1978, e Abel Ferrara, 1993).

Na foto, o ator Kevin McCarthy em cena do filme.

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