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Cinefilia, ontem e hoje (parte 1)

“Sou de uma geração desencantada, a que descobriu o cinema às vésperas do fechamento das salas: salas de bairro já há algum tempo transformadas em oficinas mecânicas ou lojas, salas de cineclubes desertadas em prol da telinha, salas de arte e experimentação parisienses em plena reestruturação. Entretanto, soube rapidamente que ‘isso’ existia, a cinefilia, essa vida que organizamos em torno dos filmes. Mas era o fim dos anos 1970 e ela não existiu por muito tempo. A palavra ‘cinefilia’, então incessantemente proclamada, designava na realidade um amor e uma prática irremediavelmente mortos. Minha geração não poderia reinventar esse amor: os ‘autores’ estavam consagrados, os artigos, escritos, as entrevistas, gravadas, os filmes, vistos, e às vezes revistos na televisão. Tudo já tinha acontecido.” — Antoine de Baecque, 2003, no livro Cinefilia.

Luzes da cidade (City lights, 1931, de Charles Chaplin) é tão mágico que consegue superar a solidão do espectador. Mas apenas no meio de uma plateia podemos nos deixar levar por ondas de alegria, tristeza e empatia. Chaplin confiava tanto no público que, quando fez Luzes da ribalta (Limelight), em 1952, mostrou uma apresentação clássica de comédia, com performances do personagem do próprio Chaplin, Calvero, e seu parceiro — interpretado por Buster Keaton — no palco de um teatro, sem gravar os risos da plateia presente. Ele acreditava que as pessoas que fossem assistir ao filme numa sala de cinema providenciariam os risos, e foi o que fizeram. Assistir a essa cena em DVD é uma experiência inquietantemente silenciosa. DVDs nos permitem assistir a milhares de filmes sempre que desejarmos, e assisti-los repetidamente, parando e acelerando para saborear certas cenas, gerando um vínculo íntimo com obras que antes estavam restritas a um pequeno grupo de fãs obsessivos de cinema. Ainda assim, o DVD e o Blu-ray, por mais que nos encham os olhos, continuam sendo substitutos da experiência originalmente pretendida. Estamos sozinhos em casa com os filmes, e progresso está nos olhos de quem vê.” — Gary Giddins, 2010, no livro Warning shadows: Home alone with classic cinema.

“É um estranho paradoxo que mais ou menos metade dos meus amigos e colegas acredita que estamos hoje chegando ao fim do cinema como forma de arte e ao fim da crítica de cinema como uma atividade séria, enquanto a outra metade acha que estamos desfrutando algum tipo animador de ressurgimento e renascimento em ambas as áreas. (…) Ouso dizer que, para o bem e para o mal, a cultura cinematográfica de alguma forma esteve em transição por toda a sua existência, e assim se mantém. Essa é uma parte intrínseca do seu mistério, da sua mágica, da sua atração emocional contínua sobre nós.” — Jonathan Rosenbaum, 2010, no livro Goodbye cinema, Hello cinephilia: Film culture in transition.

Como prova de que a transição é mesmo contínua, muita coisa já mudou entre 2010 e 2019. Ou DVD e Blu-ray já não são termos anacrônicos para a grande parte do público?

Na foto, Buster Keaton e Charles Chaplin literalmente em cena no filme Luzes da ribalta.

Cinefilia, de Antoine de Baecque, foi lançado no Brasil em 2010 pela Cosac Naify. Tradução de André Telles. Está fora de catálogo, mas pode ser encontrado, geralmente a preços não muito atraentes, na Estante Virtual.

Warning shadows: Home alone with classic cinema, de Garry Giddins, foi publicado pela W. W. Norton & Company. Inédito no Brasil, está disponível em e-book, no original, na Amazon brasileira. Trecho em tradução livre.

Goodbye cinema, Hello cinephilia: Film culture in transition, de Jonathan Rosenbaum, foi publicado pela University of Chicago Press. Também é inédito no Brasil e está disponível em e-book, no original, na Amazon brasileira. Trecho em tradução livre.

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